Mayhem em São Paulo: uma noite de culto, memória e brutalidade no VIP Station

São Paulo viveu, no último domingo, uma noite que dificilmente será esquecida pelos seguidores do metal extremo. No palco do VIP Station, o Mayhem apresentou um espetáculo que ultrapassou a ideia tradicional de show para se transformar em um verdadeiro ritual de celebração de quatro décadas de história de uma das bandas mais influentes e controversas do black metal mundial.

Desde as primeiras horas da noite, o ambiente ao redor da casa já indicava que não seria uma apresentação comum. Camisetas gastas, patches antigos, fãs de diferentes gerações e um clima de reverência tomavam conta do local. O público não parecia estar ali apenas para ouvir músicas, mas para testemunhar um capítulo importante da história do metal extremo sendo escrito ao vivo.

 

Uma formação que carrega o peso da história

No palco, a formação atual do Mayhem mostrou por que a banda segue relevante mesmo após tantas mudanças ao longo dos anos. Necrobutcher, um dos pilares remanescentes da fundação do grupo, conduz o baixo com presença sólida e postura quase cerimonial. Hellhammer segue sendo um dos bateristas mais respeitados do gênero, preciso, agressivo e absolutamente dominante em cada virada.

 

As guitarras de Ghul e Teloch criaram uma muralha sonora densa, fria e cortante, mantendo o equilíbrio entre agressividade e atmosfera — algo essencial para o som do Mayhem. No centro de tudo, Attila Csihar provou mais uma vez por que é uma figura singular na história do black metal. Sua performance vocal não se limita ao canto: é teatral, ritualística, quase xamânica. Com figurino sombrio e movimentos calculados, Attila conduz o público por uma experiência que mistura música, encenação e culto.

 

Convidados que conectam passado e presente

Um dos pontos altos da noite foi a participação de convidados históricos. Manheim, baterista original do EP Deathcrush, e Billy Messiah, vocalista ligado à fase inicial da banda, trouxeram uma dimensão simbólica poderosa ao espetáculo. A entrada desses músicos no palco foi recebida com aplausos imediatos e emoção visível por parte do público mais antigo, que entende o peso histórico daqueles nomes.

Esses momentos funcionaram como uma ponte entre o Mayhem primitivo, cru e controverso do final dos anos 1980 e a banda consolidada que sobe hoje aos palcos do mundo inteiro. Não soou como nostalgia vazia, mas como reconhecimento de uma trajetória marcada por rupturas, tragédias, reinvenções e sobrevivência.

 

Um setlist que percorre décadas de escuridão

O repertório apresentado ao longo de quase duas horas foi cuidadosamente construído para funcionar como uma retrospectiva da carreira do Mayhem. O show teve início com faixas mais recentes, criando uma ambientação sombria e tensa, preparando o terreno para o que viria depois. Canções como “Malum” e “Bad Blood” mostraram a força da fase moderna da banda, mais técnica, densa e atmosférica.

À medida que o show avançava, o público foi conduzido por diferentes fases do grupo. Faixas como “Psywar”, “My Death”, “View From Nihil” e “Symbols of Bloodswords” demonstraram como o Mayhem evoluiu sem jamais perder sua identidade abrasiva. Cada música era recebida com intensidade, seja em mosh pits mais contidos, seja em braços erguidos e olhares fixos no palco.

O ápice emocional veio quando o repertório mergulhou nos clássicos absolutos. Momentos dedicados ao álbum De Mysteriis Dom Sathanas provocaram uma reação quase catártica. “Freezing Moon”, “Life Eternal”, a faixa-título do disco e “Funeral Fog” transformaram o VIP Station em um verdadeiro templo do black metal. O silêncio reverente de alguns e os gritos extasiados de outros mostraram como esse material segue vivo e significativo.

 

Encore visceral e encerramento arrebatador

No encore, o clima de celebração deu lugar à violência sonora pura. “Deathcrush”, executada com a participação dos convidados, soou como um manifesto do espírito original do Mayhem. “Chainsaw Gutsfuck” e “Necrolust” trouxeram o caos primitivo que ajudou a moldar o gênero. O fechamento com “Pure Fucking Armageddon” foi simbólico: uma explosão final de agressividade, reverência e afirmação de identidade.

Billy Messiah, assumindo os vocais em parte desse trecho, trouxe uma postura mais crua e direta, contrastando com a teatralidade de Attila e reforçando a diversidade de fases que coexistiram naquela noite.

 

Produção, cenário e atmosfera

O telão exibiu colagens visuais que dialogavam com as diferentes eras da banda, reforçadas por um jogo de luzes preciso, quase hipnótico. O palco não apostou em exageros cenográficos, mas soube criar uma atmosfera densa e opressiva — exatamente o que se espera de um show do Mayhem. A produção foi eficiente, valorizando a música e a performance sem distrações desnecessárias.

 

Um marco para São Paulo e para a cena extrema

Mais do que um grande show internacional, a apresentação do Mayhem no VIP Station teve peso histórico para a cena brasileira. Em um país onde o metal extremo sempre enfrentou dificuldades de espaço e reconhecimento, presenciar uma celebração tão completa do legado de uma banda desse porte é algo significativo.

O Mayhem mostrou que, mesmo após 40 anos, ainda carrega relevância artística, força simbólica e capacidade de provocar emoções intensas. O público saiu do VIP Station com a sensação de ter participado de algo único — não apenas um show, mas um encontro com a própria história do black metal.

No final da noite, ficou claro que o Mayhem não vive apenas do passado. Ele o honra, o revisita e o transforma em algo vivo, pulsante e desconfortável. E em São Paulo, nesse último domingo, essa chama ardeu intensamente.

Setlist

  1. Malum
  2. Bad Blood
  3. MILAB
  4. Psywar
  5. Illuminate Eliminate
  6. Chimera
  7. My Death
  8. Crystalized Pain in Deconstruction
  9. View From Nihil
  10. Ancient Skin
  11. Symbols of Bloodswords
  12. Freezing Moon
  13. Life Eternal
  14. De Mysteriis Dom Sathanas
  15. Funeral Fog

 

Bis

 

  1. Deathcrush
  2. Chainsaw Gutsfuck
  3. Necrolust
  4. Pure Fucking Armageddon